sexta-feira, 20 de maio de 2016

Lenda de Oxalá e Xango


Oxalufam, o Oxalá Velho e curvado por sua idade avançada, resolveu viajar a Oyó em visita  a Xango, seu genro e a quem queria como filho.
 
Antes de partir, foi consultar um babalaô para saber acerca da viagem. O adivinho recomendou-lhe que não fizesse a viagem. Seria melhor esperar por outra lua, a viagem tendia a ser desastrosa e acabaria mal. Mesmo assim, Oxalufam, que tinha tanto de bondade e misericórdia, como de teimosia, resolveu fazer a viagem. O adivinho aconselhou-o então a levar consigo três mudas de roupa (panos brancos) , limo-da-costa e sabão-da-costa, assim como a aceitar e fazer tudo que lhe pedissem no caminho. E sobretudo, não reclamar de nada, acontecesse o que acontecesse. Seria a forma de não perder a vida.
Na sua viagem, Oxalufam encontrou Esú três vezes. Três vezes Esu Bará solicitou ajuda ao velho rei para carregar seu fardo... E, tal como tinha combinado com o babalaô, sempre Oxalá ajudou e transportou a carga. Nas três vezes, Oxalufam derrubou a carga sobre si mesmo. E por três vezes Oxalufam ficou sujo de óleo de palma, de carvão, e de caroço de dendê. Três vezes foi Oxalufam ao rio mais próximo lavar-se e trocar suas vestes.
Finalmente chegou a Oyó. Ao chegar aos arredores da cidade viu um enorme cavalo branco, perdido, que ele reconheceu como o cavalo que havia oferecido a Xango. Na sua lenta e bondosa calma, foi amansando o animal e conseguiu amarrar o animal para devolver ao seu amado genro. Mas neste momento chegaram alguns súditos do rei à procura do animal perdido. Viram um ancião que não reconheceram como Oxalufam com o cavalo e pensaram tratar-se do ladrão do animal. Maltrataram e prenderam Oxalufam. Ele, sempre calado, deixou-se levar prisioneiro.
Por haver um inocente preso, na Terra do Senhor da Justiça, a vida começou a correr mal no reino de  Xango. Oyó viveu por longos sete anos a mais profunda seca. As mulheres tornaram-se estéreis e muitas doenças assolaram o reino.
Xangô desesperado, procurou um babalaô que sempre lhe dizia: “faz justiça Xango, faz Justiça!!!”. E Xango decidia com Justiça e ele mesmo executava as sentenças...
Ao fim de sete anos, descobriu que um velho preso por lhe ter roubado um cavalo, não era senão outro que o Senhor Oxalufam e que este sofria injustamente, pagando por um crime que não cometera.
Xangô ordenou que trouxessem água do rio para lavar o rei. O rei de Oyó mandou seus súditos vestirem-se de branco. E que todos permanecessem em silêncio. Pois era preciso, respeitosamente, pedir perdão a Oxalufam. Xangô vestiu-se também de branco e nas suas costas carregou o velho rei e em sua homenagem fez um banquete.
Nesse banquete, Oxalá disse que há sete anos que não comia em pratos de louça nem de barro que apenas podia comer na gamela usada na prisão... Xango, imediatamente disse, que para que nunca fosse esquecida a injustiça que fizera sofrer a Oxalufam, passaria ele próprio a comer numa gamela de madeira e não voltaria a comer em louça, para que cada vez que comesse se lembrasse sempre do seu sogro e grande amigo Oxalá.
Com o Perdão de Oxalá todos os acontecimentos tristes acabaram num piscar de olhos, voltando normal prosperidade ao reino de Xango, que em homenagem a Oxalá às sextas-feiras veste branco.

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